16.12.2013

ENTREVISTAS EXCLUSIVAS - Enólogas portuguesas garantem que o vinho não tem género, só carácter

 

O néctar dos deuses pelas mãos das mulheres

No universo mágico das uvas e do vinho, movimentam-se em Portugal dezenas de mulheres, que conquistaram o seu lugar numa profissão que foi, durante muito tempo, quase exclusiva dos homens. As coisas mudaram. Elas são muitas, activas, apaixonadas, e levaram à enologia o mesmo rigor, dando-lhe o seu toque e sensibilidade pessoais. A maioria recusa a ideia de que há vinhos masculinos e femininos. Ou são bons ou não, sublinham. As enólogas admitem, no entanto, que as mulheres "mimam mais as uvas" e têm muita ternura pelos detalhes.

Mas, afinal, o mundo dos vinhos continua a ser fechado, numa espécie de clube "menina não entra?". Os vinhos feitos por mulheres são diferentes? As mulheres fazem vinhos femininos? Aliás, há vinhos exclusivamente femininos? As respostas, com subtis nuances, parecem ser taxativas: não, não e não. Ou não obrigatoriamente. Se assim foi no passado, mudaram-se os tempos, pela evolução e pela prova de capacidades. Hoje em dia, as fronteiras entre as habilitações masculinas e femininas estão esbatidas. Pode haver estilos diferentes no modo de proceder, aptidões distintas e variados níveis de paixão e entrega.

O mesmo sucede em relação a gostos e paladares. O cardápio de vinhos é extenso, evolui, e transforma-se ao ponto de agradar, sem diferenças de género. E a prova é que há cada vez mais mulheres apreciadoras de vinho e também são cada vez mais as mulheres que vingam, depois de se apaixonarem pela arte da enologia, o que faz com que os mercados se adaptem a essa realidade. No fim de contas, as enólogas acreditam que uma profissional pode fazer um vinho mais ou menos forte, tendo já em consideração que as mulheres não gostam só de bebidas pouco alcóolicas e muito frutadas, embora essa tendência seja já conhecida e continue a ser naturalmente explorada.

Do ponto de vista de quem faz o vinho, como de quem o bebe, o princípio tem de ser o mesmo: há apreciadores para todos os gostos. Por isso, no trabalho, na hora de todas as decisões, podem escolher-se "targets", mas a divisão entre os dois mundos não quer que eles se oponham, mas sim que se complementem. Antonina Barbosa, da Falua, Sociedade de Vinhos, explica-o melhor: "Nunca tinha feito essa distinção. Há estilos muito diferentes de vinhos mas nunca os tentei avaliar como sendo mais femininos ou masculinos. Acredito é que existem estilos que agradam mais ao público feminino, sobretudo vinhos menos estruturados, com os taninos mais envolvidos, portanto mais suaves, com menos álcool, e brancos e rosés leves, frescos e aromáticos. Mas essa tendência parece-me que também se está a generalizar para o público masculino", sublinha.

Antonina sabe que as mulheres se inclinam mais para "vinhos mais fáceis, suaves", mas também "já apreciam bons tintos". Também Alexandra Mendes, winemaker na Cooperativa Dois Portos, tem uma visão idêntica: "Os vinhos são condicionados essencialmente pela matéria-prima que lhes dá origem, nesse sentido podem ser mais elegantes e frescos ou menos elegantes e robustos, daí a associação ao carácter mais feminino ou não". Da sua experiência, bem como da análise cuidada dos mercados, Alexandra refere os estudos "que comprovam que a mulher é um público-alvo de extrema relevância".

"As mulheres estão mais despertas para o vinho, com disponibilidade para aprender e apreciar melhor o mesmo. Como já referi, esta é uma área apaixonante que desperta emoções e sensações, daí a tendência actual do mercado em considerar a mulher como elemento de oportunidade para desenvolvimento e crescimento do negócio. Com as devidas excepções, as mulheres têm tendência a preferir vinhos menos concentrados, mais elegantes e leves", sublinha.

O mesmo não se passa em relação à sua execução, que, segundo crê, depende de uma equipa multidisciplinar, em que o género não é determinante. A figura central deste conjunto de pessoas é o "Mestre", mas tudo depende da sua capacidade criativa e das suas competências, independentemente de ser homem ou mulher.

Joana Furriel, da Taylor´s, partilha da mesma forma de ver as coisas. "Não acredito que haja vinhos com toque feminino, existem sim vinhos mais elegantes e vinhos brutos, por vezes diz-se que os primeiros são feitos por mulheres, por estas serem mais sensíveis e tranquilas, mas eu não faço essa distinção. Para mim, uma boa enóloga tem de fazer todo o tipo de vinhos. O que pode acontecer é uma mulher com as mesmas uvas fazer um vinho mais delicado e frutado, enquanto o homem pode optar por um vinho mais intenso e bruto, com mais taninos, pois a mulher mima mais as uvas".

No tocante às preferências, esta enóloga confirma o que o senso comum já ditava. "Acho que tanto as mulheres como as camadas mais jovens estão a começar a gostar de vinho e a aprender, por isso é que os vinhos rosé e os vinhos brancos estão em crescimento, são vinhos direccionados para essa gama. No entanto, já se vêem mulheres a beber vinhos tintos do Douro e Alentejo e muito vinho do Porto". Catarina Vieira, da Herdade do Rocim, é mais directa na recusa em dividir ambos os mundos: "Não concordo com esse tipo de classificação. Há vinhos bons, muito bons, mas não de toque feminino ou masculino".

A engenheira acredita, aliás, que a diferença nos gostos cada vez se sente menos. "Percebe-se que há um aumento do consumo de vinho por parte das mulheres, mas parece-me que elas poderão gostar dos mesmos vinhos".  O mesmo considera no que toca a enólogas e enólogos: "O empenho, o profissionalismo, o rigor não tem género. Gosto de trabalhar assim, mas não me parece que seja por ser mulher. São características comportamentais".   

 

Mulheres consomem, conhecem e apreciam cada vez melhor

A opinião de Sandra Alves, enóloga na Herdade do Esporão, vai no mesmo sentido de que as mulheres cada vez mais prezam o vinho como bebida essencial a acompanhar uma boa refeição. "Felizmente os consumidores em geral estão cada vez mais informados e quanto melhor percepcionam o vinho maior é a frequência de consumo. As mulheres têm vindo a aumentar o poder de compra e são muitas vezes as responsáveis pela aquisição dos vinhos. Encaram o vinho como cultura, ou seja, como uma bebida de acompanhamento das refeições, com a sofisticação e o requinte que merece. Estão conscientes que o consumo moderado é benéfico para a saúde", considera.

O vinho é cada vez mais um néctar de todos e para todos. E é também verdade que elas estão a ficar cada vez mais entendidas. "Quando falo com um público feminino sobre vinho percepciono uma grande curiosidade e interesse. E após um bom vinho ser devidamente explicado quanto ao seu potencial, como deverá ser consumido, em que momento, com que acompanhamento, quais os descritores principais, etc., então as mulheres revelam-se consumidoras intuitivas e requintadas, capazes de descobrir e apreciar as características mais ínfimas da estrutura de qualquer vinho", revela. Na divisão entre vinhos de toque mais feminino e masculino, Sandra também recusa uma linha de distinção vincada, mas admite algumas diferenças: "Honestamente não sei se existem vinhos onde o toque feminino seja realmente perceptível. Talvez um consumidor/crítico muito experiente, com conhecimento prévio que este vinho foi orientado por uma mulher, possa dizer que os vinhos feitos por mulheres são mais refinados! As mulheres são tendencialmente mais minuciosas e mais atentas aos detalhes. Não fazem necessariamente vinhos melhores mas talvez mais elegantes e requintados".

 

Antonina Barbosa: De Monção para o Ribatejo

Antonina Barbosa nasceu na Terra do Alvarinho, entre vinhas e vinhos, mas só mais tarde se deixou arrebatar pela enologia. Depois de se licenciar em Bioquímica na Faculdade de Ciências do Porto, e de uma pós- graduação em segurança alimentar, trabalhou durante cinco anos na Escola Superior de Biotecnologia, onde esteve envolvida num projecto sobre aromas dos vinhos. Apaixonou-se pela ciência e fez uma outra pós- graduação em Enologia e Viticultura. Já na Falua, para onde entrou em 2004, concluiu um mestrado em Enologia. "A adaptação foi muito boa e no dia-a-dia nem me lembro que é um mundo tendencialmente masculino. Adoro o que faço e já não me imagino longe dos vinhos", frisa.

 

Alexandra Mendes: Humildade e empenho abriram portas

"A paixão pela área dos vinhos advém do facto de ser uma ciência não estática, onde podemos desenvolver um pouco da nossa capacidade criativa, tendo como objectivo a satisfação do consumidor. Esta é uma área com uma forte componente cultural, onde o vinho funciona como elemento agregador e desinibidor da sociedade, promovendo o convívio e o bem-estar. A tendência de ser um mundo masculino nunca me perturbou, com humildade e vontade de trabalhar sempre fui bem recebida. Difícil foi a entrada, pois em 1996 eram poucas as mulheres a trabalhar em adegas cooperativas, o que suscitava dúvidas e incógnitas", resume Alexandra Mendes. Esta profissional obteve a sua formação base na Escola Superior Agrária de Santarém, onde tirou Engenharia Alimentar, Ramo de Vinhos. Mas foi na vida e com os mestres que viu o gosto pela área a cimentar-se. A sua primeira vindima foi em 1995 na Quinta da Romeira, em Bucelas, dali a trabalhar na Adega Cooperativa de Dois Portos foi um passo. Aqui passou a trabalhar directamente com o conhecido enólogo João Melícias e com ele colaborou em importantes projectos. Mais tarde, pós- graduou-se em Marketing Management e nunca mais deixou a sua área de eleição.

 

Catarina Vieira:  Mundo dos vinhos é para todos

"Não sinto que este seja um mundo tendencialmente masculino porque não gosto de pensar assim", resume a engenheira Catarina Vieira, da Herdade do Rocim.  O amor pela terra e à produção de vinho chegou-lhe pelos avós paterno e materno, no início ainda não percebendo para onde rumava este apego.  "Não sabia bem se iria para Ambiente, Agronomia... Assim que comecei o curso de Engenharia Agronómica no Instituto Superior de Agronomia soube que era dali que vinha o chamamento da Natureza. "Boas uvas devem ter um caminho... fazer bons vinhos", sublinha. Catarina gosta do que faz, sobretudo da enologia e da viticultura, mas não nega que a vontade de investigar é uma característica sua. "Gosto muito de aprofundar as questões técnicas, mas nem sempre há essa disponibilidade", considera, adiantando que esta área deverá sempre procurar a excelência. "A sustentabilidade é essencial, visando sempre a obtenção da qualidade máxima".

 

Joana Furriel: Entrada difícil vencida com garra

Para Joana Furriel, a entrada no mercado de trabalho não foi fácil. Depois de ver crescer a sua paixão pelo vinho, desde os tempos de infância, quando participava nas vindimas da aldeia e no corte do lagar, lutou por seguir um percurso na área e em 1998 tirou um curso de enologia. Em Bordéus aperfeiçoou a sua formação na universidade e cumpriu o sonho de vindimar na Austrália. Durante os cursos, percebeu que se deparava com um universo fechado. "Chegaram-me a negar estágios por ser mulher", recorda. "Diziam-se que se fosse homem era mais fácil, mas que mulher não dava". Nos estágios que finalmente conseguiu, essas pedras foram-lhe afastadas do caminho. "Tive a sorte de na empresa onde estagiei e na qual estou empregada o facto de ser mulher não ser um problema, mas uma mais- valia". Ultrapassados os entraves, Joana sente-se em casa. "É para mim um prazer fazer vinho. Vivo com intensidade toda esta época de vindimas. Desde a uva até ao lote de vinho final tudo é medido, tudo é pensado para que se consiga o melhor dos vinhos", refere, encantada.

 

Sandra Alves: Determinação e herança familiar

Sandra Alves começa logo por dizer taxativamente que gosta muito do que faz. A família parece ter, muitas vezes, um grande peso nesta afectividade com a terra "Sou natural de Vila Real, Trás-os-Montes, onde tradicionalmente as famílias têm ligação com a viticultura e até produzem o seu próprio vinho. A minha não é excepção e desde que tenho memória sempre vivenciei e participei em vindimas. Foi com naturalidade que encarei a opção de estudar Enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Fiz estágios profissionais em Portugal e na Austrália e no ano de 2001 comecei a trabalhar na Herdade do Esporão onde exerço a função de enóloga responsável pela produção dos vinhos brancos. Para esta enóloga, as mulheres conseguiram integrar-se naturalmente na produção de vinho, mas também noutras áreas com ele relacionadas: "Penso que é cada vez mais comum encontrar mulheres em todas as áreas que estão relacionadas com o vinho, assim como noutras áreas de trabalho onde não isso não acontecia tradicionalmente. Felizmente é encarado cada vez com maior naturalidade e actualmente a adaptação das mulheres em qualquer meio profissional depende do profissionalismo, dedicação e determinação".

 

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